terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quando Baden-Powell se dá conta da falácia da “missão civilizadora”


Já foi dito, como Terésio Bosco reafirmou, na biografia “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial” (Editora Salesiana Dom Bosco, 1992), que o criador do escotismo era “fruto de sua época”. Uma época onde ideias de supremacias “raciais” e nacionais vigoravam abertamente. No caso dos ingleses, se sustentava que o aumento dos seus domínios eram “uma bênção” a “povos atrasados”, se justificando assim a invasão de regiões e, mesmo, países onde viviam há séculos e séculos gente que se julgava não merecer respeito por conta de sua cor e outros traços fenotípicos “inferiores”. Foi assim que as possessões inglesas (e de tantos outras nações europeias, incluindo Portugal, França, Alemanha etc.) se alastraram pela África e pelo Oriente – a enorme Índia e vastas extensões do continente africano estavam sob o jugo britânico (e europeu).

Bosco diz que BP por muito tempo “creu fielmente na 'missão civilizadora' dos povos brancos”. Mas no confronto com os Zulus, na  África, e um encontro frustrante com Cecil Rhodes, explorador inglês e herói nacional inglês naqueles tempos, descortinará o que na realidade era puramente “o desejo de dominação e o miserável desejo de riqueza que se escondiam por de trás daquela 'missão [civilizadora]'”.

No confronto com os Zuluz, em 1887, o então capitão Baden-Powell vê a majestade daqueles homens, sua nobreza e coragem; lá é que ouve o canto imperioso Ingonyama dos Zulus contra o poder inglês instalado a ferro e fogo em suas terras ancestrais. Evidente que nem toda a beleza e orgulho destes africanos eram pários militarmente para um exército munido de fuzis, que massacravam os que vinham com lanças de madeira, caso dos Zulus. BP, segundo Bosco, se questiona: não se tratavam de meros “rebeldes”, mas autênticos patriotas: “tinham lutado pela liberdade de sua terra. E eles, os ingleses, que haviam massacrado os revoltosos, quem eram? Civilizadores ou opressores?”

O encontro com Cecil Rhodes se deu ao final de outro confronto com povos africanos, desa vez, a tribo dos Matabeles, em 1896. Bosco reproduz as impressões de BP, já amadurecido, sobre o “herói inglês” Rhodes:

“Era algo entre o profeta e o aventureiro. Tinha uma ambição sem limites e desprezava os negros como raça inferior. Estava firmemente convencido de que o que é bom para a Inglaterra é bom para o mundo. Tinha uma semelhança impressionante com aqueles ditadores que nos anos 30 haveriam de dominar a Europa: Hitler, Mussolini, Stalin.”

Convivendo com Rhodes, BP sente repugnância pelo “desmensurado orgulho, sua sede insaciável de poder e de riqueza”. Está “estarrecido”, perguntando-se “Mas são estes os civilizadores do mundo?”

Assim é que BP escapa – ao menos em parte – de todo o etnocentrismo imperialista inglês, tendo um espaço para pensar mais de acordo com sua formação cristã e espírito despojado, criativo, alegre e fraternal, que conseguiu transmitir ao seu movimento juvenil (movimento juvenil, mas já com mais de um século de existência!), o que também justifica a sua renovação, sem abrir mão das boas raízes “baden-powellinas”!

Escotismo é o pacifismo na prática

Outra indicação segura de que o escotismo não deve ser associado ao militarismo e, pior, ao belicismo (postura de guerra, confronto, agressão), está nas afirmações de Baden-Powel (BP) ainda no início do movimento escotista na Inglaterra, quando, em 1913, já se avizinhava a sangrenta Primeira Guerra Mundial. Havia militares ingleses “acusando” o escotismo de ser pacifista... Na mesma biografia já citada, “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial” (Editora Salesiana Dom Bosco, 1992), o autor, Terésio Bosco, anota a resposta de BP a um desses oficiais, que criticou o pacifismo do escotismo em declaração na imprensa britânica:

“Fico reconhecido ao oficial que nos faz esta acusação... É verdade. Encorajamos os jovens a pensar em termos de paz e de amizade entre as pessoas e entre os povos”.

E a guerra se deflagrou, envolvendo no inferno as maiores nações da Europa, numa sanha e furor ditada por ambições de lideranças, que, por suas posições e interesses políticos e econômicos de seus grupos, empurravam, insuflavam o conflito, levando a carnificina, ao horror em escala, até aquele tempo, nunca vista: se dispunha de tecnologias armamentistas para a morte em massa, como é o caso do gases venenosos, potentes metralhadores, canhões bem mais precisos etc.

BP, diante das desilusões da guerra, muito visíveis no trágico final dos confrontos estúpidos, pondera:

“Devemos nos empenhar a fim de que os jovens que estão crescendo em todas as partes do mundo possam viver, como irmão, a experiência do escotismo. Eles ficarão assim ligados por uma amizade que possibilitará encontrar uma solução pacífica para os grandes conflitos internacionais...”

No complemento anotado por Bosco, BP mais uma vez reafirma o componente democrático e de auto-engajamento do escotismo, que produzirá bons frutos:

“Se os futuros cidadãos do mundo tiverem convivido lado a lado em um acampamento de escoteiros, serão capazes de regular as controvérsias com discussão [debate entre pares] e pactos amigáveis. Percorrerão o caminho da paz e não o da guerra”.

Infelizmente, veio outra guerra internacional ainda maior, mais letal e traumática. O ainda jovem escotismo não foi capaz de barrar o renascimento do barbarismo – considerando, ainda, que o movimento escotista estava “competindo” com estruturas de coeducação juvenil bem mais próximas do militarismo, tais como a Boys’ Brigade e as organizações juvenis de base nazi-fascista.

Bosco encerra o capítulo dizendo que, ainda em meio ao rescaldo da Primeira Guerra, “a defesa da paz através do escotismo será a ‘missão especial’ de Baden-Powell”. Missão esta que todo escotista deve ter em mente, em especial as lideranças adultas do movimento, construindo sempre ambientes e atividades que reforcem a fraternidade entre as pessoas.

Boys' Brigades X Boy Scouts

Muitos associam escotismo a militarismo. Muitos inscrevem seus filhos ou os estimulam para o escotismo justamente com a ideia de que “terão disciplina de exército”, intoduzindo-os em uma espécie de antecipação do serviço militar obrigatório, quando, se supõe, o jovem “se tornará um homem de verdade”. Parece-me que há enganos aí...

Robert Baden-Powel (BP), mesmo que, por sua formação e época de vida, estar longe do que sabemos sobre, por exemplo, o construtivismo do genial epistemólogo* suiço Jean Piaget e os estudos contemporâneos da neurociência, o fundador do escotismo já se postava francamente contrário a uma proposta militarizada para a educação de jovens. O exemplo disso está na sua recusa em apoiar as “Brigadas de Rapazes” (Boys’ Brigade) fundadas pelo seu conterrâneo William Smith.

Conforme narra a biografia “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial”, escrita por Terésio Bosco e publicada pela Editora Salesiana Dom Bosco em 1992, BP, após assistir em 1903 “um imponente desfile de soldadinhos, impecavelmente uniformizados” que “obedecem automaticamente às ordens dos chefes”, é indagado por Smith se não era aquela “a melhor maneira de preparar o futuros cidadãos?” E o futuro “chefe mundial dos escoteiro”, em sua proverbial simplicidade e inteligência, diz:

“Se me permite, não estou de acordo. Esta disciplina é muito exterior, muito militar. Jovem é jovem. Para ele é preciso uma disciplina mais alegre, mais espontânea, mais jovem, em suma.”

Adiante, BP, já vai dizendo sobre a responsabilidade do adulto no trabalho com a juventude, desmanchando qualquer ideia impositiva:

“Devemos ter bem diante dos olhos a meta a que deve tender todo educador de jovens: ajudá-los a formar caráter, a desenvolver o espírito de serviçalismo [fraternidade] para com os demais, a tornar-se bons cidadão.”

Vejam que as lideranças adultas são vistas como educadores, e não como instrutores hierarquicamente superiores, a modo militar. Nem se quer desenvolver alguma destreza útil em alguma guerra, dentro de uma estrutura de exército.

Isto fica muito evidente já na primeira saudação feita por BP no acampamento fundador, na ilha de Brownsea, em 1907:

“Tenho plena confiança em vocês, pois conto com o sentimento de honra de vocês. Não obedecerão a mim, e sim ao líder que elegerão dentro de cada 'patrulha' [grupo].”

A organização escoteira está muito mais próxima de uma organização democrática, de uma “pedagogia da autonomia” do que das rígidas hierarquias militares.

Termos como “patrulha” e os próprios uniformes, bandeiras, condecorações etc. são muito mais estratégias para engajar ludicamente os jovens e dar-lhes “espírito de igualdade” do que associar o escotismo a alguma forma de exército, de “força armada”.

No agrupamento chamado de “patrulha”, “um adulto controlará, mas em fazer pesar o seu controle. A patrulha deve ser um mundozinho à parte, com as suas tradições, os seus símbolos, o seu trabalho: uma sociedade em miniatura”, diz Bosco, a partir do que deseja BP: “o desenvolvimento do instinto social”, tendo-se “ilimitada confiança” nas jovens lideranças grupais.

As “Brigadas Juvenis” não foram abandonada (existem até hoje, aliás) e em tempos de ditadura, totalitarismo e guerra (ou onde há “caldo-de-cultura” para tal) foram (ou são) retomadas em seu sentido belicoso, ditatorial – basta falarmos na juventude hitlerista e fascista dos anos de fermentação da Segunda Guerra Mundial, alimentadas por ideologias racistas, totalitárias, cegamente subservientes, cruéis e, até, assassinas.

Esquecer o que moveu e pensou BP ao fundar o escotismo, caindo no equívoco de entender o movimento como disciplinamento militaresco – atestando-se, aí, que não se estudou suficientemente o que disse o seu venerável fundador – é trair uma proposta coeducativa para jovens em busca da paz (que será um próximo assunto).