terça-feira, 11 de setembro de 2012

Kipling, autor de O Livro da Selva – fundo didático para os lobinhos – e o papel dos adultos no desenvolvimento das crianças e jovens no escotismo

Destaquei a passagem abaixo de um artigo da Wikipédia sobre Rudyard Kipling. Fala do “trauma” do autor de O Livro da Selva por conta de pressões que ele sofreu e que, infelizmente, comumente adultos cometem com crianças pequenas. Por sorte, Kipling “fez do limão uma limonada”, transformando um sofrimento (desnecessário e perigoso) em um talento.

Como Kipling é referência na educação escotista, em especial quando se fala em lobinhos, é interessante ressaltar o acontecido e a observação que ele fez:

Os pais de Kipling se consideravam 'anglo-indianos' (termo usado no século 19 por cidadãos britânicos residentes na Índia) como também ele próprio o faria, embora ele tenha vivido a maior parte de sua vida no exterior. Questões complexas de identidade e lealdade nacional foram aspectos proeminentes de sua ficção.

Os dias de Kipling de "intensa luz e escuridão" em Bombaim terminariam quando ele tivesse 7 anos. Como era o costume na Índia britânica, ele e a sua irmã de três anos, Alice ("Trix"), seriam mandados para a Inglaterra – no caso deles para Southsea (Portsmouth), onde deles cuidariam um casal que recebia filhos de compatriotas britânicos vivendo na Índia. As duas crianças viveriam com o casal, Capitão Holloway e esposa, na casa deles, Lorne Lodge, pelos próximos seis anos. Em sua autobiografia, escrita 65 anos depois, Kipling lembraria aquele tempo com horror, e se perguntaria ironicamente se a combinação de crueldade e negligência que ele experimentou nas mãos da Sra. Holloway não poderiam ter apressado o começo de sua vida literária:

"Se você interroga uma criança de sete ou oito anos sobre suas atividades diárias (especialmente quando ela quer dormir), ela se contradiz com satisfação. Se cada contradição for tomada como uma mentira no café-da-manhã, a vida não é fácil. Eu experimentei um bocado de intimidação, mas isso era tortura calculada – tanto religiosa quanto científica. Ainda assim, isso me fez dar atenção às mentiras que eu, cedo, achei necessário contar: e isso, eu presumo, é a base do meu esforço literário."

Intimidação é, para mim, um abuso da autoridade que os adultos submetem crianças e jovens. Autoridade precisa de responsabilidade, que , por sua vez, exige, no caso da educação deliberada, conhecimentos sobre o processo educativo, e que, sobretudo, envolve compreender no mínimo, hoje em dia, aspectos básicos de neurociência, epistemologia do conhecimento, história e filosofia da educação, sociologia, concepções pedagógicas etc. Ou seja, educar ou co-educar uma criança não é algo “natural” e que “qualquer um pode fazer” – ainda mais quando se está dentro de instituições como a escola e os grupos escotistas, fora do âmbito familiar (mas mesmo aí é preciso informação), lidando com pessoas dentro de um coletivo que explicitamente tem um fim formativo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quando Baden-Powell se dá conta da falácia da “missão civilizadora”


Já foi dito, como Terésio Bosco reafirmou, na biografia “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial” (Editora Salesiana Dom Bosco, 1992), que o criador do escotismo era “fruto de sua época”. Uma época onde ideias de supremacias “raciais” e nacionais vigoravam abertamente. No caso dos ingleses, se sustentava que o aumento dos seus domínios eram “uma bênção” a “povos atrasados”, se justificando assim a invasão de regiões e, mesmo, países onde viviam há séculos e séculos gente que se julgava não merecer respeito por conta de sua cor e outros traços fenotípicos “inferiores”. Foi assim que as possessões inglesas (e de tantos outras nações europeias, incluindo Portugal, França, Alemanha etc.) se alastraram pela África e pelo Oriente – a enorme Índia e vastas extensões do continente africano estavam sob o jugo britânico (e europeu).

Bosco diz que BP por muito tempo “creu fielmente na 'missão civilizadora' dos povos brancos”. Mas no confronto com os Zulus, na  África, e um encontro frustrante com Cecil Rhodes, explorador inglês e herói nacional inglês naqueles tempos, descortinará o que na realidade era puramente “o desejo de dominação e o miserável desejo de riqueza que se escondiam por de trás daquela 'missão [civilizadora]'”.

No confronto com os Zuluz, em 1887, o então capitão Baden-Powell vê a majestade daqueles homens, sua nobreza e coragem; lá é que ouve o canto imperioso Ingonyama dos Zulus contra o poder inglês instalado a ferro e fogo em suas terras ancestrais. Evidente que nem toda a beleza e orgulho destes africanos eram pários militarmente para um exército munido de fuzis, que massacravam os que vinham com lanças de madeira, caso dos Zulus. BP, segundo Bosco, se questiona: não se tratavam de meros “rebeldes”, mas autênticos patriotas: “tinham lutado pela liberdade de sua terra. E eles, os ingleses, que haviam massacrado os revoltosos, quem eram? Civilizadores ou opressores?”

O encontro com Cecil Rhodes se deu ao final de outro confronto com povos africanos, desa vez, a tribo dos Matabeles, em 1896. Bosco reproduz as impressões de BP, já amadurecido, sobre o “herói inglês” Rhodes:

“Era algo entre o profeta e o aventureiro. Tinha uma ambição sem limites e desprezava os negros como raça inferior. Estava firmemente convencido de que o que é bom para a Inglaterra é bom para o mundo. Tinha uma semelhança impressionante com aqueles ditadores que nos anos 30 haveriam de dominar a Europa: Hitler, Mussolini, Stalin.”

Convivendo com Rhodes, BP sente repugnância pelo “desmensurado orgulho, sua sede insaciável de poder e de riqueza”. Está “estarrecido”, perguntando-se “Mas são estes os civilizadores do mundo?”

Assim é que BP escapa – ao menos em parte – de todo o etnocentrismo imperialista inglês, tendo um espaço para pensar mais de acordo com sua formação cristã e espírito despojado, criativo, alegre e fraternal, que conseguiu transmitir ao seu movimento juvenil (movimento juvenil, mas já com mais de um século de existência!), o que também justifica a sua renovação, sem abrir mão das boas raízes “baden-powellinas”!

Escotismo é o pacifismo na prática

Outra indicação segura de que o escotismo não deve ser associado ao militarismo e, pior, ao belicismo (postura de guerra, confronto, agressão), está nas afirmações de Baden-Powel (BP) ainda no início do movimento escotista na Inglaterra, quando, em 1913, já se avizinhava a sangrenta Primeira Guerra Mundial. Havia militares ingleses “acusando” o escotismo de ser pacifista... Na mesma biografia já citada, “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial” (Editora Salesiana Dom Bosco, 1992), o autor, Terésio Bosco, anota a resposta de BP a um desses oficiais, que criticou o pacifismo do escotismo em declaração na imprensa britânica:

“Fico reconhecido ao oficial que nos faz esta acusação... É verdade. Encorajamos os jovens a pensar em termos de paz e de amizade entre as pessoas e entre os povos”.

E a guerra se deflagrou, envolvendo no inferno as maiores nações da Europa, numa sanha e furor ditada por ambições de lideranças, que, por suas posições e interesses políticos e econômicos de seus grupos, empurravam, insuflavam o conflito, levando a carnificina, ao horror em escala, até aquele tempo, nunca vista: se dispunha de tecnologias armamentistas para a morte em massa, como é o caso do gases venenosos, potentes metralhadores, canhões bem mais precisos etc.

BP, diante das desilusões da guerra, muito visíveis no trágico final dos confrontos estúpidos, pondera:

“Devemos nos empenhar a fim de que os jovens que estão crescendo em todas as partes do mundo possam viver, como irmão, a experiência do escotismo. Eles ficarão assim ligados por uma amizade que possibilitará encontrar uma solução pacífica para os grandes conflitos internacionais...”

No complemento anotado por Bosco, BP mais uma vez reafirma o componente democrático e de auto-engajamento do escotismo, que produzirá bons frutos:

“Se os futuros cidadãos do mundo tiverem convivido lado a lado em um acampamento de escoteiros, serão capazes de regular as controvérsias com discussão [debate entre pares] e pactos amigáveis. Percorrerão o caminho da paz e não o da guerra”.

Infelizmente, veio outra guerra internacional ainda maior, mais letal e traumática. O ainda jovem escotismo não foi capaz de barrar o renascimento do barbarismo – considerando, ainda, que o movimento escotista estava “competindo” com estruturas de coeducação juvenil bem mais próximas do militarismo, tais como a Boys’ Brigade e as organizações juvenis de base nazi-fascista.

Bosco encerra o capítulo dizendo que, ainda em meio ao rescaldo da Primeira Guerra, “a defesa da paz através do escotismo será a ‘missão especial’ de Baden-Powell”. Missão esta que todo escotista deve ter em mente, em especial as lideranças adultas do movimento, construindo sempre ambientes e atividades que reforcem a fraternidade entre as pessoas.

Boys' Brigades X Boy Scouts

Muitos associam escotismo a militarismo. Muitos inscrevem seus filhos ou os estimulam para o escotismo justamente com a ideia de que “terão disciplina de exército”, intoduzindo-os em uma espécie de antecipação do serviço militar obrigatório, quando, se supõe, o jovem “se tornará um homem de verdade”. Parece-me que há enganos aí...

Robert Baden-Powel (BP), mesmo que, por sua formação e época de vida, estar longe do que sabemos sobre, por exemplo, o construtivismo do genial epistemólogo* suiço Jean Piaget e os estudos contemporâneos da neurociência, o fundador do escotismo já se postava francamente contrário a uma proposta militarizada para a educação de jovens. O exemplo disso está na sua recusa em apoiar as “Brigadas de Rapazes” (Boys’ Brigade) fundadas pelo seu conterrâneo William Smith.

Conforme narra a biografia “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial”, escrita por Terésio Bosco e publicada pela Editora Salesiana Dom Bosco em 1992, BP, após assistir em 1903 “um imponente desfile de soldadinhos, impecavelmente uniformizados” que “obedecem automaticamente às ordens dos chefes”, é indagado por Smith se não era aquela “a melhor maneira de preparar o futuros cidadãos?” E o futuro “chefe mundial dos escoteiro”, em sua proverbial simplicidade e inteligência, diz:

“Se me permite, não estou de acordo. Esta disciplina é muito exterior, muito militar. Jovem é jovem. Para ele é preciso uma disciplina mais alegre, mais espontânea, mais jovem, em suma.”

Adiante, BP, já vai dizendo sobre a responsabilidade do adulto no trabalho com a juventude, desmanchando qualquer ideia impositiva:

“Devemos ter bem diante dos olhos a meta a que deve tender todo educador de jovens: ajudá-los a formar caráter, a desenvolver o espírito de serviçalismo [fraternidade] para com os demais, a tornar-se bons cidadão.”

Vejam que as lideranças adultas são vistas como educadores, e não como instrutores hierarquicamente superiores, a modo militar. Nem se quer desenvolver alguma destreza útil em alguma guerra, dentro de uma estrutura de exército.

Isto fica muito evidente já na primeira saudação feita por BP no acampamento fundador, na ilha de Brownsea, em 1907:

“Tenho plena confiança em vocês, pois conto com o sentimento de honra de vocês. Não obedecerão a mim, e sim ao líder que elegerão dentro de cada 'patrulha' [grupo].”

A organização escoteira está muito mais próxima de uma organização democrática, de uma “pedagogia da autonomia” do que das rígidas hierarquias militares.

Termos como “patrulha” e os próprios uniformes, bandeiras, condecorações etc. são muito mais estratégias para engajar ludicamente os jovens e dar-lhes “espírito de igualdade” do que associar o escotismo a alguma forma de exército, de “força armada”.

No agrupamento chamado de “patrulha”, “um adulto controlará, mas em fazer pesar o seu controle. A patrulha deve ser um mundozinho à parte, com as suas tradições, os seus símbolos, o seu trabalho: uma sociedade em miniatura”, diz Bosco, a partir do que deseja BP: “o desenvolvimento do instinto social”, tendo-se “ilimitada confiança” nas jovens lideranças grupais.

As “Brigadas Juvenis” não foram abandonada (existem até hoje, aliás) e em tempos de ditadura, totalitarismo e guerra (ou onde há “caldo-de-cultura” para tal) foram (ou são) retomadas em seu sentido belicoso, ditatorial – basta falarmos na juventude hitlerista e fascista dos anos de fermentação da Segunda Guerra Mundial, alimentadas por ideologias racistas, totalitárias, cegamente subservientes, cruéis e, até, assassinas.

Esquecer o que moveu e pensou BP ao fundar o escotismo, caindo no equívoco de entender o movimento como disciplinamento militaresco – atestando-se, aí, que não se estudou suficientemente o que disse o seu venerável fundador – é trair uma proposta coeducativa para jovens em busca da paz (que será um próximo assunto).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O chifre de kudu nos 100 anos do escotismo

No dia 1º de agosto passado [2007] comemoraram-se os 100 anos de escotismo no mundo, cujo marco inicial é um acampamento em Browsea, pequena ilha próxima a Londres, na Inglaterra. E lá mesmo, na pátria de nascença de Robert Baden-Powell, apelidado de BP, é que aconteceu o grande festival do centenário escotista, o Jamboree Internacional, com a presença de uma delegação do Grupo de Escoteiros de Santa Cruz do Sul, o GESC 181.

Mas o que eu quero ressaltar é que – embora toda essas identificações européias, em especial com a Grã-bretanha – o escotismo, desde as suas origens, tem muitas ligações com a África. Uma prova disso aconteceu na cerimônia de renovação mundial da promessa durante o mega-evento comemorativo, reunindo gente do mundo todo, da Suazilândia a Hungria, de Bangladesh a Islândia, do Brasil a Bélgica. Pois tal cerimônia foi aberta pelo toque peculiar de um berrante feito com um chifre de kudu, um antílope africano. Usado pelos matabeles, povo que habitava o que é hoje o Zimbabue, mais que ritualístico, era um instrumento de comunicação que atingia longas distâncias e alertava a população em situações onde a atenção era necessária, caso de ataques em conflitos. BP, que atuou como militar em várias regiões do continente africano, impressionou-se com o uso desta peculiar corneta, levando-a como lembrança para sua casa. E no primeiro acampamento escotista de 1907 – e depois em vários outros momentos – o chifre de kudu dos negros matabeles anunciariam o início de atividades escotistas pelo planeta afora.

Há vários outros elementos da cultura africana presentes na literatura, nas místicas e práticas escotistas – sempre através da experiência de vida de BP, transposta para um movimento que nasceu já com esta multiculturalidade e etnicidade plural (até por conta de fatores históricos da política mundial, como o colonialismo das grandes potências do século XIX e XX; mais a peculiar personalidade do “pai do escotismo”, um autêntico lorde inglês, mas que não se furtava em incorporar conhecimentos e hábitos de outros povos – lembrando, também, que BP residiu, morreu e está enterrado no Quênia).

Que nunca se percam tais características! Em qualquer lugar do mundo, a atitude dos membros do movimento escotista é pelo convício fraterno e respeitoso; sem supremacias, com total abertura, buscando-se superar um dos males que mais causaram – e ainda causam – guerras sanguinolentas e injustiças sociais brutais: o preconceito, gerador da discriminação, entre elas o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa e ideológica. Por isso, o Jamboree do Centenário foi uma demonstração que o congraçamento é possível, “Um outro mundo é possível”, como no slogan do Fórum Social Mundial – desde que baixemos nossos escudos mentais e cumprimentemos com a mão esquerda (do coração, e mais um gesto típico escotista derivado de um costume africano) a toda a humanidade!

A selva na escola

Compartilho aqui um tema que envolve o Escotismo - movimento que vai completar 100 anos, criado, como é sabido, pelo militar inglês Baden-Powell, espalhando-se pelo mundo inteiro como uma proposta de educação não-formal complementar à escola. Algumas leituras e observações que ando fazendo nos últimos meses têm me revelado um "manancial" para monografias, dissertações e teses bem pouco explorado na área da Pedagogia e mesmo da Letras, entre outras.

Um dos aspectos que mais têm me intrigado é fato de que todo o fundo didático-pedagógica dos Lobinhos - o ramo infantil dos escoteiros, que abrange meninos e meninas dos 7 aos 11 anos - estar baseada numa obra clássica da literatura infanto-juvenil, os contos d'O Livro da Selva (na verdade o O livro da Selva e também O Segundo Livro da Selva), de Rudyard Kipling, onde aparece o personagem Mogli (ou Mowgli) - o menino indiano adotado por uma família de lobos. Os manuais, os métodos, as "místicas", os trabalhos com as crianças, enfim, são referenciados em personagens e situações vividas nos contos - popularizados em especial pela versão açucarada (adulterada, talvez) de Walt Disney.

Como é que contos para crianças e jovens se tornam um elemento central de uma proposta educacional? Por que Baden-Powel escolheu O Livro da Selva, obra de um escritor nascido e criado na Índia na parte final do século XIX, que se passa principalmente na selva e aldeia indianas? Como essa proposta vem se desenvolvendo? Como isso se mantém após quase um século de aplicação, envolvendo milhares de pessoas em países tão variados? Há outros exemplos de uso da Literatura como base didático-pedagógica tão explícita? Etc.

Bem, como já disse, é só para compartilhar um tema - como tenho feito com outras pessoas que podem ter algum interesse no assunto.

Além da África, a Índia no coração do Escotismo

Já mencionei a influência de elementos da cultura africana no escotismo a partir de Robert Baden-Powell, fundador do movimento, que viveu na África e apaixonou-se pelo continente, escolhendo-o como terra para o desenlace da sua alma e o retorno do seu corpo à natureza – num gesto de significado simbólico imenso e às vezes desapercebido no meio escotista.

Mas além do continente africano, há outra influência cultural internacional muito importante e também pouco considerada: A da milenar Índia, mais uma região de gente de pele muito morena, com traços físicos e cosmovisão não-européias. Talvez a mais forte evidência disso esteja no fundo didático-pedagógico que Baden-Powel – que iniciou sua carreira militar na Índia, em 1876 – definiu para o ramo que abrange as crianças dentro da organização escotista, os Lobinhos. Tratam-se dos contos do escritor nascido – de pais ingleses – e criado na Índia, Rudyard Kipling, mais especificamente as histórias dos O Livro da Selva e O Segundo Livro da Selva, onde aparece o personagem Mogli, popularizado pelo cinema na versão dos estúdios de Walt Disney.

O sociólogo Laszlo Nagi, em sua obra 250 Milhões de Escoteiros, saída no Brasil em 1987, diz que “em sua maneira usual, pragmática, Baden-Powell transformou as imagens poéticas [como a das aventuras e desventuras do menino Mogli] em uma forma de vida prática, adaptando os sonhos e alegrias de Kipling em um método educacional para pessoas jovens”, complementando que “este casamento feliz da poesia com a ação permanece como um elemento importante na história de sucesso do Escotismo.”

O Manual dos Lobinhos, segundo Laszlo, é inspirado diretamente nos dois “Livros da Selva” (ou da “Jângal”, conforme a tradução ao português), publicados por Kipling original e respectivamente em 1894 e 1895, e considerados as suas obras-primas, cheios de referências à geografia, à fauna, à flora, à história, ao folclore e costumes do povo indiano e de países arredores. Contemporâneo de Baden-Powell, Rudyard recebeu o Prêmio Nobel em 1907, consagrando-se como poeta, contista e romancista de grande atividade social pelo mundo inteiro.

Mogli (ou Mowgli, dependendo do tradutor) é um menino criado dentro de uma família e comunidade de lobos da selva indiana, onde se agregam outros animais, como o urso Baloo, a pantera Bagueera, o abutre Chil, a serpente Kaa, o tigre “vilão” Shere Khan, além das importantes figuras de Akela, o lobo líder do conselho, e a mãe adotiva do bebê perdido, a corajosa e decidida loba Raksha. Entre os humanos, lá estão personagens típicos do que ainda era a Índia do final do século XIX, berço do budismo e de religiões ainda mais antigas e, enfim, de uma civilização complexa muito anterior à Europa cristã.

Assim como Baden-Powell, Rudyard Kipling é “um homem do seu tempo”, com seus inescapáveis vínculos com as idéias que vigoravam no então imenso e poderoso Império Britânico. Mas quero destacar, mais uma vez, a contribuição especial – mesmo que através do filtro de “cara-pálidas” como “BP” e “RK” – de povos “não-ocidentais” na formulação e manifestação do movimento escotista. Tal consideração é uma prevenção, uma lembrança, uma barreira para atitudes racistas no dia-a-dia deste imenso e quase centenário movimento educacional de dimensões mundiais. A África e a Índia estão no “sangue” do escotismo e a discriminação por questões de cor da pele e vínculos étnico-raciais uma impostura a um Escoteiro – desde o tempo de Lobinho!

Santa Cruz do Sul, outubro de 2006.



Complementos:

*O Livro da Jângal foi o título na tradução de Monteiro Lobato, que também traduziu outros contos de Kipling, além do romance Kim, outra obra referencial ao escotismo.

*Há O Segundo livro da Selva, publicado no ano seguinte ao primeiro volume (1894). Este “The Second jungle book” foi ilustrado pelo pai de Rudyard, John Lockwood Kipling. A ilustração que tive acesso, acheia-a sensacional – bem mais fiel, vigorosa e poética do que a versão infantilóide dada pelo estúdio de Walt Disney, que popularizou Mogli nesta versão por demais infantilizada – açucarada/adulterada.

*Há, ainda, O terceiro livro da selva, publicado em 1992, de uma escritora americana, Pámela Jakel, que, dizem, foi muito fiel com o “espírito” das histórias de Kipling, criando enredos que cobrem outros períodos da vida de Mogli, além de contos no estilo “fábulas aventurescas” característico do de Rudyard.

*Kipling, que veio ao Brasil em 1927, teve, em sua tenra infância na Índia (onde nasceu em 1865), uma babá de Goa – território na antiga Índia dominado pelos portugueses – que falava o Português, conforme está na introdução de Cenas brasileiras, livro que narra, com a exuberância kipliniana, as impressões sobre passagem do autor de O livro da selva no Brasil. Está aí, talvez, mais um elo entre Rudyard, sua obra-prima da literatura infanto-juvenil, o escotismo/“lobinhoismo” e o nosso país.

*Kim é um romance especialmente referencial para o escotismo – em razão da própria citação e recomendação de leitura feita por Banden-Powell, que inclusive desenvolve uma resenha e resumo sobre essa obra no seu fundante manual Escotismo para rapazes. Na página 30, “As aventuras de Kim”, BP começa dizendo: “Um bom exemplo do que um Escoteiro pode fazer, acha-se na história de Kim narrada por Rudyard Kipling.” Antes, ao comentar a 4ª “Lei do Escoteiro”, BP diz: “Kim era chamado de ‘o amiguinho de todos’, e este é o apelido que cada escoteiro deve conquistar para si.”

Baden-Powell e Rudyard Kipling têm muitas coisas em comum, além de serem contemporâneos (nasceram e morreram respectivamente em 1857/1941 e 1865/1936). Ambos viveram e fizeram a defesa do imperialismo britânico e sua “missão civilizadora” no atravessar do século XIX e XX. Ambos conheceram com profundidade regiões e povos da África (onde BP faleceu) e da Índia (onde Kipling nasceu), além de viajarem por inúmeros outros países ao longo de suas vidas. Ambos eram “moralistas”, desenvolvendo esforços para disseminar suas idéias – BP fundando o Movimento Escotista e Kipling escrevendo e palestrando pelo mundo todo. Ambos também foram reconhecidos ainda em vida (BP foi agraciado com o título nobiliárquico de Lord em 1929, e Kipling recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1907) e suas obras permanecem no cenário social e cultural de praticamente o mundo inteiro – até mesmo pela associação direta – das mais interessantes – entre o movimento infanto-juvenil de Baden-Powell (Lobinhos, Escoteiros e Bandeirantes) e a literatura também vinculada a crianças e jovens de Kipling (O Livro da Selva e Kim, entre outros), com já aludi. Quem ao menos não ouviu falar em “escoteiros” ou em Mogli? Mesmo que os “pais” destas criações tenham submergido pelo avanço de suas “criaturas”, para quem for mais a fundo, encontrará nesses “filhos” as personalidades, as idéias e as vidas destes dois pensadores e “homens de ação” e, frise-se, também “homens do seu tempo”, vinculados a conceitos e valores contestáveis e até execráveis. Mesmo assim, há uma força e magia para além das ideologias datadas das obras de BP e Kipling. E é isso que mantém os seus apelos de fruição e, digamos, suas utilidades no mundo contemporâneo.

*No Dicionário Enciclopédico Koogan Laroussse, de 1980, sobre Kipling, diz que “Suas poesias e os romances Livros da Selva (1849-1895) e Kim (1901) celebram a superioridade do imperialismo anglo-saxão.” Sem dúvida é uma advertência importante para lermos tais obras e, em conseqüência, avaliarmos criticamente outras criações referenciadas nelas, caso do “Lobinhismo” (O livro da selva, primeiro e segundo volumes) e mesmo do “Escotismo para rapazes” (que remete-se a Kim) de Baden-Powell.

Mas a crítica, que considera Rudyard “o principal representante da literatura imperialista”, às vezes pode ser uma interpretação superficial: “O que Kipling mostra, mais que a presunção do propagandista, é a preocupação do moralista. Preocupa-o certamente o futuro do império britânico, que sabe que vai acabar por desaparecer, mas sustenta que as suas instituições devem defender-se a partir de uma postura ética. Para Kipling, a ação do homem recupera significado na sua dimensão social. Por isso lhe interessam tanto as comunidades militares e escolares e, inclusive, a singular associação dos animais da selva”, conforme texto retirado da internet. Em outro comentário acessado na rede, diz-se que Kipling é “Considerado ‘o Poeta do Império [britânico]’, laureado com o Prêmio Nobel em 1907, [...] é um autor que tem gerado grandes controvérsias. A sua defesa da ‘missão imperial’ inglesa, as suas posições anti-semíticas e misóginas (‘a fêmea da espécie é mais mortífera do que o macho’), por exemplo, são responsáveis por uma certa quebra de popularidade deste autor, mas a complexidade e o vigor da sua obra e da sua escrita continuam a merecer a atenção da crítica e a devoção de muitos leitores.”

Portanto, a preocupação moralista (pautar-se em valores considerados nobres), a defesa de posições a partir da ética, a importância da dimensão social em todas as ações humanas (em contraponto a todo tipo de egoísmos), além da complexidade, vigor e poética da sua obra devem ser contrapostos a posturas execráveis do autor lidas em nossa época. Considerar estas dimensões de Kipling – na continuidade do encantamento de seus contos infanto-juvenis, onde aparecem personagens tão longevos como o menino indiano Mowgli e a perene influência em métodos de educação para crianças, caso dos Lobinhos, dentro do centenário e internacional Movimento Escotista – é evitar o equívoco de simplesmente “jogá-lo no lixo”, fazendo-se como naquela historieta popular, que fala de se ter o cuidado de não jogar o bebê da banheira junto com a água suja...

*Tenho comigo duas versões da obra Kipling que saíram no Brasil nos últimos anos, a O livro da selva, da LPM, 1997, tradução de Vera Karam, e O livro da  jângal, da Martin Claret, 2004, tradução de Jean Melville. O segundo é uma coletânea do The second jungle book e do The jungle book. As leituras dos contos onde aparece Mowgli me surpreenderam, me impressionaram, me revelaram um personagem muito mais “selvagem”, agressivo, aventureiro e também poético do que o infantilóide Mowgli caracterizado pela versão dos estúdios Disney (tal versão é a que estava difusamente registrada em minha memória, não despertando, assim, maior interesse da minha parte). Todos os personagens são mais vigorosos e poeticamente viscerais do que esta versão açucarada do cinema. Da leitura, emerge um Mowgli destemido, até soberbo, às vezes, cheio de conflitos em sua juventude, acompanhado de personagens animais e humanos de consistência muito mais densa, como já fiz alusão.

Escotismo: O causo do cavalo roubado

Mais um fato interessante dentro do universo escotista: os gaúchos, ou seja, os mestiços com raízes nos grupos indígenas do pampa sul-americano são destacados por Robert Baden-Powell no seu clássico Escotismo para Rapazes, obra ainda referencial para o movimento mundial.

No capítulo 13 – Conversa de Fogo de Conselho: Leitura de Indícios ou Dedução –, na edição de 1975, publicada pela União dos Escoteiros do Brasil, “BP”, para tratar da utilidade e formação de habilidades para reconhecer “pistas”, menciona os “rastreadores sul-americanos” – os “vaqueiros nativos da América do Sul”, os “gauchos” (sem o acento no “u”), conforme está na tradução que tenho em mãos.

Conforme de costume,  o “Pai do Escotismo” conta um episódio, na página 223, para ilustrar a “lição”, dando o sabor peculiar de suas obras, que atrai o jovem leitor: Um gaúcho estava atrás de um cavalo que fora roubado, mas não obteve sucesso imediato na captura; dez meses depois, entretanto, andando em uma outra região, percebeu “pegadas frescas” do animal; seguiu-as e, afinal, recuperou o cavalo. Algo extraordinário – e por isto a citação de “BP” como exemplo –, mas não impossível para um “gaudério” nascido e criado “no lombo do cavalo”, educado por velhos tropeiros, por antigos índios, acampando nos campos, convivendo 24 horas por dia com os eqüinos e demais flora e fauna pampianas.

A atenção aos detalhes, a memória ativa, enfim , o lema “sempre alerta” é claramente estampado nesta referência aos homens do pampa, indivíduos, ressalte-se, originados no caldeamento genético e cultural entre os nativos indígenas e os grupos de origem européia e africana que foram ocupando o território onde hoje estão partes do Brasil, Uruguai e Argentina.

Assim é que o Rio Grande do Sul e toda a região do Pampa, através da notória habilidade do “crioulo” – definido aqui como o indivíduo com descendência estrangeira, em especial espanhóis e portugueses, mas já nascido e radicados em terras desta parte da América Latina – liga-se à proposta educacional de Baden-Powell, somando-se às constantes referências a outros povos nativos da África (zulus, metabeles, aschantis, etc.), da Índia, da Austrália (os aborígines), da América do Norte (os “peles-vermelhas”), entre outros.

Mesmo que sob uma problemática perspectiva etnocêntrica (os valores do “meu grupo” usados como parâmetros para julgar e submeter os “outros”), própria de um militar a serviço do então todo poderoso império britânico, vivendo nos anos conturbados do início do século XX, “BP” desencadeia uma mobilização juvenil de inegável sucesso e inúmeras derivações, e cuja abertura à diversidade cultural, a presença e o real respeito a todas as etnias, jamais podem ser esquecidas por um verdadeiro escotista.

Obs.: No próximo dia 22 de novembro [2006] Baden-Powell completaria 150 anos de nascimento. Coincidentemente, em 2007 o movimento escotista completará 100 anos de criação. São efemérides importantes, em minha opinião, por tratarem-se de um personagem e de uma mobilização coletiva de significativas influências sócio-culturais pelo mundo todo.

Escotismo não é militarismo

Quando li a obra do sociólogo Laszlo Nagy, fiquei positivamente  surpreendido com várias indicações da influência africana e também indiana no escotismo através do seu criador, o “BP”, codinome carinhoso dado a Robert Baden-Powell. Também me impressionou, conforme avançava na leitura do 250 milhões de escoteiros, publicado pela União dos Escoteiros do Brasil, em 1987, a perspectiva não autoritária da proposta educacional escotista – o que até contradiz a cultura militar e imperialista britânica onde estava inserido “BP” e a exteriorização (que pode ser interpretada como) para-bélica do movimento, através de certos elementos, como o uso de uniformes, distintivos, cultos cívicos, denominações como “patrulha”, “tropa” e outras caracterizações e atividades que parecem inspiradas nas tradições castrenses e no treinamento de cadetes de forças armadas.

Mas foi exatamente o jovem general Baden-Powell, como anota Laszlo, em sua personalidade pragmática, tolerante, liberal, artística (era desenhista, escultor, ator de teatro, etc.) e, sobretudo, autocrítica, de um humor compassivo, de sutil ironia, quem gestou um movimento juvenil além-fronteiras e antidogmático – embora sempre solapado por “seguidores” e dissidentes que compreenderam (e ainda há quem compreenda) o escotismo como algo autoritário e ossificado. E, então, da idéia “baden-powelliana” de que atividades coletivas ao ar-livre seriam benéficas a todos os jovens, em especial aos “urbanizados”, se transformou, em muitos casos, em um disciplinamento reacionário, pela submissão, ideologicamente conservador.

Na autobiografia de “BP”, Lições da escola da vida, publicada pela Editora Escoteira brasileira, em 1986, há uma ilustração paradigmática feita pelo próprio “Pai do Escotismo”: enquanto cadetes empertigados marcham com paços exagerados sob um comandante que vocifera a suas costas – uma caricatura zombeteira de típica postura militarista –, jovens escoteiros agachados em frente ao seu fogão improvisado, cozinham seus alimentos olhando de soslaio, um tanto espantados, aquela manifestação de formalismo rígido, violento, machesco. Na legenda, lê-se: “O escotismo não tem NADA de comum com uma escola de soldados”.

No mesmo livro, “BP” conta que vários elementos associados ao escotismo foram criados não pra reproduzir a tal “escola de soldados”, e sim como estratégias de agregação dos jovens, caso da vestimenta típica: “O uniforme é uma grande atração para o menino e porque se assemelha ao traje dos mateiros [ou seja, homens que se embréiam em selvas], leva-o em imaginação a sentir-se ligado a esses heróis da fronteira [civilizacional], que tanto o fascinam; favorece também a fraternidade, uma vez que, adotado por todos, nivela os sinais exteriores das diferenças de classe e origem; é simples e higiênico (o que hoje em dia está em moda [primeiros anos do século XX]) e se aproxima do traje de nossos ancestrais [os antigos bretões, terra de ‘BP’].”

Ao final do clássico manual Escotismo para rapazes, editado pela mesma Editora Escoteira, em 1975, está a mensagem que “BP”, já quase encerrando sua “jornada pela vida”, quis deixar aos jovens escotistas. Ao cabo dessa “carta derradeira”, onde ele se compara ao capitão Gancho, o vilão ao mesmo tempo cruel e romântico da história de Peter Pan, referindo-se ao chefe pirata que estava sempre a fazer seu discurso de despedida a seus marujos marginais, “temendo que, ao chegar a hora de morrer, não tivesse tempo, talvez, de pronunciá-lo” – demonstrando assim que sua veia auto-irônica de grande bom-humor estava intacta em seus mais de 80 anos –, Baden-Powell não assina este documento histórico como “general”, nem mesmo “chefe” ou algo que o valha, mas, singela e significativamente, como “do amigo”. Não há exortações pela manutenção de alguma disciplina rígida, por algum tipo de autoflagelo, de educação pela dor e obediência cega, mas o incentivo à “curtição da vida”, pelo saber, em suas próprias palavras, “saborear a vida”, sendo felizes da maneira mais fundamental e duradoura, ou seja, “proporcionando felicidades aos outros” – a todos, à humanidade e ao planeta e universo miraculosos que nos contém, sendo uma grande estupidez qualquer tipo de soberba, de “adestramento à guerra”, que, em suma, é sempre uma agressão, uma agressividade a outros seres.

No escotismo, seguindo-se o espírito de “BP”, o lema “Sempre Alerta” ou “Esteja Preparado” é em relação à paz, à fraternidade e respeito às pessoas em todas as suas dimensões individuais e grupais.


*O sucesso do escotismo entre os jovens, segundo Laszlo, comentando os anos fundamentais do escotismo, deriva-se de ser um processo educativo lúdico, do jogo, da integração ao ambiente natural. “Os primeiros escoteiros descobriram o prazer do auto- desenvolvimento e da auto-educação, sem punições e outras limitações normais impostas por rígidas convenções sociais.” “A idéia de servir, posta em prática pela procura de fazer uma boa obra, diariamente, tornou-se uma forma de vida. Era um mundo à parte, da disciplina severa e de ordens incontestadas, emitidas por rigorosos mestre, ou pais. Foram os próprios jovens, com seu comprometimento e entusiasmo, que representaram a maior força do Movimento. Eles foram atraídos a uma forma de vida que desconheciam na escola, em casa ou a igreja, e o compromisso por eles espontaneamente aceitos, como o famoso código de honra escoteiro, foi um elemento inestimável do Ativo [aspectos positivos do movimento]. Um modelo tinha sido estabelecido, que serviria, para sempre, como um princípio diretor, a despeito de mudanças estruturais e organizacionais inevitáveis através dos anos. (...) as dificuldades e problemas foram causados por adultos e não por jovens. A folha de Balanço, portanto, não estava isenta de Passivo [p. 72 e 73]”. 

As negras raízes do escotismo

Pode até parecer um contra-senso, mas o movimento mundial criado pelo inglês Baden-Powell no começo do século 20 tem muitas ligações com o continente africano. Como militar, o jovem Robert, então capitão do exército imperial britânico, começa a conhecer a África pelo sul, ou seja, pela África do Sul.

Atou em vários conflitos na região. Um dos mais marcantes, certamente foi o da “Guerra dos Zulus”. Conforme o sociólogo e escotista suíço Laszlo Nagy, em seu livro publicado originalmente em 1985, traduzida no Brasil como 250 milhões de escoteitos, “nesta campanha militar, Baden-Powell adquiriu três coisas que deveria guardar durante o resto de seus dias. A primeira, um longo colar do chefe Dinizulu, formado por contas de madeira entalhada, o qual deveria mais tarde presentear a seus melhores Escoteiros. A segunda – uma experiência, em humildade que o ensinou não somente a apreciar as qualidades de seu adversário, mas também aprender a sua forma de vida e cultura, fosse o inimigo um Bantu ou Bôer”.

Além da insígnia derivada do colar Zulu, a canção Ingonyâma, “uma melodia majestosa e cativante que mais tarde deveria tornar-se o canto dos Escoteiros em todo mundo”, vem, da mesma forma, deste ancestral povo africano.

Robert também passou por Gana, na época, Costa do Ouro, onde mais uma vez nutriu-se da cultura local. Laszlo anota que Baden-Powell “aprendeu a apreciar a sabedoria do provérbio do povo Ashanti: ‘Devagar, devagarzinho, é que se pega o macaquinho’”, que fala da necessária suavidade e paciência para se cumprir difíceis tarefas e objetivos idealizados.

Já dedicava a África um “amor apaixonado”. Em carta a sua mãe, durante a permanência em Matabelândia, onde conviveu com gente das tribos matabeles, “passou um dos períodos mais felizes de sua vida.” E em outra região da África do Sul, na fronteira com a então Rodésia, é onde se tornará um herói britânico: Mafeking. É ali que gesta-se, no íntimo de Robert, a futura “decisão dramática de voltar às costas a todas as formas de violência e colocar o enorme capital de sua fama militar à disposição do movimento educacional não militar, com o qual o seu nome estará para sempre ligado – o Escotismo”, nas palavras de Laszlo.

Talvez a maior prova do apreço pela terra africana está no fato de Baden-Powell – que também esteve a trabalho no Egito –  ter escolhido a região de Nyeri, no Quênia – onde comprou uma casa –, para viver seus últimos anos de vida, retirando-se para sempre da Inglaterra em 1938, vindo a falecer, aos 84 anos, no começo de 1941 em sua “pátria de coração”, onde está até hoje o seu venerado túmulo. Se Robert não pode escolher onde nasceu, parece que escolheu onde morrer e reintegrar o seu corpo à natureza e ter seu espírito partindo em meio às bênçãos da “Mama África”.

Portanto, é no continente africano, em meio ao povo negro, que “BP” nutre-se para fundar e dirigir até o fim de sua vida uma mobilização juvenil mundial sem precedentes. É importante ter em mente essas “negras raízes”, para que nunca se pratique, entre escotistas, discriminações por questões étnicas, de “coloração da pele” e outros atributos físico-corporais e culturais, já que na origem do escotismo está a profunda influência, apara além de exotismos e estereótipos, da população africana, tão maltratada, além de suas próprias contendas, pela ganância, intriga, opressão e exploração dos “brancos”, às quais, contraditoriamente  – é preciso ter consciência –, Baden-Powel esteve a serviço enquanto soldado e súdito de um império europeu


Complementos ao texto:

*A edição de 250 Milhões de Escoteiros,da qual foram retiradas as informações acima, foi editada pela União dos Escoteiros do Brasil/Região do RS e impresso pela Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (CORAG), RS, em fevereiro de 1987.

*O contra-senso se refere a um senso-comum, dado pela minha (limitada) observação de que o escotimo em cidades como Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, além de relatos, é formado por esmagadora maioria de pessoas brancas. Nas chefias, é possível afirmar-se que, praticamente, 100% é composta por brancos. Como outras diversas instituições, a elitização sócio-econômica própria do “escotismo na prática” implica num “filtro” étnico-racial muito potente, resultado de um processo histórico geral ainda em curso no Brasil.

*O já alquebrado Robert dá mostras de sua idéia de um movimento sem exclusões – racistas, culturais, religiosas, de classe, etc. – pelas tentativas, na mesma África do Sul que conheceu ainda jovem, e para onde viaja mais uma vez em 1935, de manter a união entre grupos de escoteiros de “diversas cores” numa sociedade forte e horrivelmente marcada pelo já instalado “apartheid”, segregacionismo que se oficializou.

*“BP” também sofreu influências diretas e indiretas da cultura da Índia, onde atuou como militar, além da dos índio norte-americanos, através da obra e do contato como Ernest Thompson Seton, “um dos primeiros ecologistas dos tempos modernos”, autor de “Birch-bark Roll of the Wodcraft Indians” e criador de um programa para jovens “inspirado nos costumes de índios silvícolas”.

*O título “Negras raízes” do texto acima pode atrair pelo conteúdo “macabro” da expressão – o que é em certa medida proposital. Quase sempre palavras como negro e preto (e derivadas) são negativamente qualificadores. Assim se diz “magia negra” e “a coisa está preta” para se referir a algo perigoso e indesejável. É notável como a linguagem acaba colaborando para reforçar estigmas, já que “negro” e “preto” são designativos para afro-descendentes de pele escura aqui em nosso país.


*Quando li essa obra de Laszlo, fiquei positivamente  surpreendido com várias indicações da influência africana no escotismo através do seu criador, o “BP”. Também me impressionou, conforme avançava na leitura do 250 milhões de escoteiros, a perspectiva não-autoritária da proposta educacional escotista (que quero abordar em um outro texto), o que até contradiz a cultura militar e imperialista britânica onde estava fortemente inserido Baden-Powel e a exteriorização (que pode ser interpretada como) para-bélica do movimento através de certos elementos, como o uso de uniformes, distintivos, cultos cívico, denominações como “patrulha”, “tropa” e outras caracterizações e atividades inspiradas nas tradições castrenses e no treinamento de cadetes.

*“BP” era “um homem do seu tempo”, quer dizer, compartilhava valores característicos de um branco europeu que viveu na transição dos séculos XIX ao XX, formado dentro de instituições da Inglaterra ainda potência imperial e imperialista, com domínios em praticamente todo o planeta, arrogando-se detentora da mais avançada “civilização”. Na antropologia cultural é usado um termo, “etnocentrismo”, para se referir a centralidade que temos, enquanto membro de um grupo humano, ao avaliar outros grupos, quase sempre de forma depreciativa e de estranhamento. A forma de combater tal visão “etno-centrada” é relativizar: avaliar os “outros” a partir dos valores, da cosmovisão, desses “outros”, e não a partir de “nossos” próprio parâmetros.


OBS.: Contatos comigo podem ser feitos pelo e-mail iuriaz@hotmal.com


# Há uma versão com pequenas alterações modificada destes textos que foi publicada no blog mantido pelo “Chefe Bala” – Grupo de Escoteiros de Santa Cruz do Sul.

Aos/às amigos/as que se interessam por escotismo

Em 2006 fiz uma seguinte introdução a um dos primeiros textos que escrevi e publiquei em jornais e distribuí a amigos. Epode servir muito bem para a introdução ao que pretendo fazer neste blog,ou seja, um polígrafo eletrônico sobre minhas anotações e visões sobre o escotismo. Após esse primeiro texto, outros se seguiram - e pretendo "de vez em quando" postar mais alguma coisa.

********************

Amigos/as,

O pequeno texto a seguir pretende ser uma reflexão construtiva, que dedico aos escoteiros da região, aos quais tenho uma ligação indireta desde a infância, através de conhecidos que foram escoteiros na minha cidade de nascença, Venâncio Aires – onde o grupo estava desativado durante a minha infância e adolescência –, através, também, do meu irmão mais moço, que foi escoteiro após a reativação do grupo venâncio-airense, e, em especial, através de meu amigo Rafael “Chefe Bala” Amorim, com o qual há mais de uma década travo um recorrente e inesgotável debate sobre o movimento escotista, objeto de minha paradoxal admiração e crítica.

A admiração e a crítica ganharam mais consistência com a leitura da obra de Laszlo  Nagy, 250 milhões de escoteiros, e Lições da escola da vida, a auto-biografia (parcial) de Baden-Powel. O livro de Laszlo me surpreendeu, ao apresentar as origens e proposta do movimento, ligadas a íntima convivência do fundador do movimento com as coisas da África e, ainda, pelo caráter aberto, democrático e autonomista da “pedagogia escotista” proposta por “BP”, contrariando o que suponho ser a “cultura militar” onde ele estava inserido desde jovem, reforçada por configurações de elitização social e para-militarismos do movimento, bastante flagrante na percepção de gente como eu.

Enfim, como em outras manifestações, quero falar da falsidade e perversidade das separações e hierarquias sociais, sejam de qualquer fundo. Se existe, mesmo que aparentemente, um caráter exclusor, conservador e anti-democrático no movimento, as palavras e a trajetória de Baden-Powell podem desmentir ou então redefinir a postura do escotismo.

Iuri J. Azeredo, agosto de 2006.

Teste

Teste.