segunda-feira, 11 de junho de 2012

O chifre de kudu nos 100 anos do escotismo

No dia 1º de agosto passado [2007] comemoraram-se os 100 anos de escotismo no mundo, cujo marco inicial é um acampamento em Browsea, pequena ilha próxima a Londres, na Inglaterra. E lá mesmo, na pátria de nascença de Robert Baden-Powell, apelidado de BP, é que aconteceu o grande festival do centenário escotista, o Jamboree Internacional, com a presença de uma delegação do Grupo de Escoteiros de Santa Cruz do Sul, o GESC 181.

Mas o que eu quero ressaltar é que – embora toda essas identificações européias, em especial com a Grã-bretanha – o escotismo, desde as suas origens, tem muitas ligações com a África. Uma prova disso aconteceu na cerimônia de renovação mundial da promessa durante o mega-evento comemorativo, reunindo gente do mundo todo, da Suazilândia a Hungria, de Bangladesh a Islândia, do Brasil a Bélgica. Pois tal cerimônia foi aberta pelo toque peculiar de um berrante feito com um chifre de kudu, um antílope africano. Usado pelos matabeles, povo que habitava o que é hoje o Zimbabue, mais que ritualístico, era um instrumento de comunicação que atingia longas distâncias e alertava a população em situações onde a atenção era necessária, caso de ataques em conflitos. BP, que atuou como militar em várias regiões do continente africano, impressionou-se com o uso desta peculiar corneta, levando-a como lembrança para sua casa. E no primeiro acampamento escotista de 1907 – e depois em vários outros momentos – o chifre de kudu dos negros matabeles anunciariam o início de atividades escotistas pelo planeta afora.

Há vários outros elementos da cultura africana presentes na literatura, nas místicas e práticas escotistas – sempre através da experiência de vida de BP, transposta para um movimento que nasceu já com esta multiculturalidade e etnicidade plural (até por conta de fatores históricos da política mundial, como o colonialismo das grandes potências do século XIX e XX; mais a peculiar personalidade do “pai do escotismo”, um autêntico lorde inglês, mas que não se furtava em incorporar conhecimentos e hábitos de outros povos – lembrando, também, que BP residiu, morreu e está enterrado no Quênia).

Que nunca se percam tais características! Em qualquer lugar do mundo, a atitude dos membros do movimento escotista é pelo convício fraterno e respeitoso; sem supremacias, com total abertura, buscando-se superar um dos males que mais causaram – e ainda causam – guerras sanguinolentas e injustiças sociais brutais: o preconceito, gerador da discriminação, entre elas o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa e ideológica. Por isso, o Jamboree do Centenário foi uma demonstração que o congraçamento é possível, “Um outro mundo é possível”, como no slogan do Fórum Social Mundial – desde que baixemos nossos escudos mentais e cumprimentemos com a mão esquerda (do coração, e mais um gesto típico escotista derivado de um costume africano) a toda a humanidade!

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