Mais um fato interessante dentro do universo escotista: os gaúchos, ou seja, os mestiços com raízes nos grupos indígenas do pampa sul-americano são destacados por Robert Baden-Powell no seu clássico Escotismo para Rapazes, obra ainda referencial para o movimento mundial.
No capítulo 13 – Conversa de Fogo de Conselho: Leitura de Indícios ou Dedução –, na edição de 1975, publicada pela União dos Escoteiros do Brasil, “BP”, para tratar da utilidade e formação de habilidades para reconhecer “pistas”, menciona os “rastreadores sul-americanos” – os “vaqueiros nativos da América do Sul”, os “gauchos” (sem o acento no “u”), conforme está na tradução que tenho em mãos.
Conforme de costume, o “Pai do Escotismo” conta um episódio, na página 223, para ilustrar a “lição”, dando o sabor peculiar de suas obras, que atrai o jovem leitor: Um gaúcho estava atrás de um cavalo que fora roubado, mas não obteve sucesso imediato na captura; dez meses depois, entretanto, andando em uma outra região, percebeu “pegadas frescas” do animal; seguiu-as e, afinal, recuperou o cavalo. Algo extraordinário – e por isto a citação de “BP” como exemplo –, mas não impossível para um “gaudério” nascido e criado “no lombo do cavalo”, educado por velhos tropeiros, por antigos índios, acampando nos campos, convivendo 24 horas por dia com os eqüinos e demais flora e fauna pampianas.
A atenção aos detalhes, a memória ativa, enfim , o lema “sempre alerta” é claramente estampado nesta referência aos homens do pampa, indivíduos, ressalte-se, originados no caldeamento genético e cultural entre os nativos indígenas e os grupos de origem européia e africana que foram ocupando o território onde hoje estão partes do Brasil, Uruguai e Argentina.
Assim é que o Rio Grande do Sul e toda a região do Pampa, através da notória habilidade do “crioulo” – definido aqui como o indivíduo com descendência estrangeira, em especial espanhóis e portugueses, mas já nascido e radicados em terras desta parte da América Latina – liga-se à proposta educacional de Baden-Powell, somando-se às constantes referências a outros povos nativos da África (zulus, metabeles, aschantis, etc.), da Índia, da Austrália (os aborígines), da América do Norte (os “peles-vermelhas”), entre outros.
Mesmo que sob uma problemática perspectiva etnocêntrica (os valores do “meu grupo” usados como parâmetros para julgar e submeter os “outros”), própria de um militar a serviço do então todo poderoso império britânico, vivendo nos anos conturbados do início do século XX, “BP” desencadeia uma mobilização juvenil de inegável sucesso e inúmeras derivações, e cuja abertura à diversidade cultural, a presença e o real respeito a todas as etnias, jamais podem ser esquecidas por um verdadeiro escotista.
Obs.: No próximo dia 22 de novembro [2006] Baden-Powell completaria 150 anos de nascimento. Coincidentemente, em 2007 o movimento escotista completará 100 anos de criação. São efemérides importantes, em minha opinião, por tratarem-se de um personagem e de uma mobilização coletiva de significativas influências sócio-culturais pelo mundo todo.
Seguem textos, comentários e outras referências ao que chamamos "raízes do escotismo" (roots of scouts). Queremos falar das origens históricas, sociais, culturais, políticas, pedagógicas, entre outras, do escotismo desenvolvido pelo inglês Robert Baden-Powell e seus continuadores. Além propriamente das "raízes", vamos abordar os "galhos" e "frutos" deste que é o maior movimento infanto-juvenil educativo com mais de um século de existência, espalhado por praticamente o mundo todo.
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