segunda-feira, 11 de junho de 2012

As negras raízes do escotismo

Pode até parecer um contra-senso, mas o movimento mundial criado pelo inglês Baden-Powell no começo do século 20 tem muitas ligações com o continente africano. Como militar, o jovem Robert, então capitão do exército imperial britânico, começa a conhecer a África pelo sul, ou seja, pela África do Sul.

Atou em vários conflitos na região. Um dos mais marcantes, certamente foi o da “Guerra dos Zulus”. Conforme o sociólogo e escotista suíço Laszlo Nagy, em seu livro publicado originalmente em 1985, traduzida no Brasil como 250 milhões de escoteitos, “nesta campanha militar, Baden-Powell adquiriu três coisas que deveria guardar durante o resto de seus dias. A primeira, um longo colar do chefe Dinizulu, formado por contas de madeira entalhada, o qual deveria mais tarde presentear a seus melhores Escoteiros. A segunda – uma experiência, em humildade que o ensinou não somente a apreciar as qualidades de seu adversário, mas também aprender a sua forma de vida e cultura, fosse o inimigo um Bantu ou Bôer”.

Além da insígnia derivada do colar Zulu, a canção Ingonyâma, “uma melodia majestosa e cativante que mais tarde deveria tornar-se o canto dos Escoteiros em todo mundo”, vem, da mesma forma, deste ancestral povo africano.

Robert também passou por Gana, na época, Costa do Ouro, onde mais uma vez nutriu-se da cultura local. Laszlo anota que Baden-Powell “aprendeu a apreciar a sabedoria do provérbio do povo Ashanti: ‘Devagar, devagarzinho, é que se pega o macaquinho’”, que fala da necessária suavidade e paciência para se cumprir difíceis tarefas e objetivos idealizados.

Já dedicava a África um “amor apaixonado”. Em carta a sua mãe, durante a permanência em Matabelândia, onde conviveu com gente das tribos matabeles, “passou um dos períodos mais felizes de sua vida.” E em outra região da África do Sul, na fronteira com a então Rodésia, é onde se tornará um herói britânico: Mafeking. É ali que gesta-se, no íntimo de Robert, a futura “decisão dramática de voltar às costas a todas as formas de violência e colocar o enorme capital de sua fama militar à disposição do movimento educacional não militar, com o qual o seu nome estará para sempre ligado – o Escotismo”, nas palavras de Laszlo.

Talvez a maior prova do apreço pela terra africana está no fato de Baden-Powell – que também esteve a trabalho no Egito –  ter escolhido a região de Nyeri, no Quênia – onde comprou uma casa –, para viver seus últimos anos de vida, retirando-se para sempre da Inglaterra em 1938, vindo a falecer, aos 84 anos, no começo de 1941 em sua “pátria de coração”, onde está até hoje o seu venerado túmulo. Se Robert não pode escolher onde nasceu, parece que escolheu onde morrer e reintegrar o seu corpo à natureza e ter seu espírito partindo em meio às bênçãos da “Mama África”.

Portanto, é no continente africano, em meio ao povo negro, que “BP” nutre-se para fundar e dirigir até o fim de sua vida uma mobilização juvenil mundial sem precedentes. É importante ter em mente essas “negras raízes”, para que nunca se pratique, entre escotistas, discriminações por questões étnicas, de “coloração da pele” e outros atributos físico-corporais e culturais, já que na origem do escotismo está a profunda influência, apara além de exotismos e estereótipos, da população africana, tão maltratada, além de suas próprias contendas, pela ganância, intriga, opressão e exploração dos “brancos”, às quais, contraditoriamente  – é preciso ter consciência –, Baden-Powel esteve a serviço enquanto soldado e súdito de um império europeu


Complementos ao texto:

*A edição de 250 Milhões de Escoteiros,da qual foram retiradas as informações acima, foi editada pela União dos Escoteiros do Brasil/Região do RS e impresso pela Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (CORAG), RS, em fevereiro de 1987.

*O contra-senso se refere a um senso-comum, dado pela minha (limitada) observação de que o escotimo em cidades como Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul, além de relatos, é formado por esmagadora maioria de pessoas brancas. Nas chefias, é possível afirmar-se que, praticamente, 100% é composta por brancos. Como outras diversas instituições, a elitização sócio-econômica própria do “escotismo na prática” implica num “filtro” étnico-racial muito potente, resultado de um processo histórico geral ainda em curso no Brasil.

*O já alquebrado Robert dá mostras de sua idéia de um movimento sem exclusões – racistas, culturais, religiosas, de classe, etc. – pelas tentativas, na mesma África do Sul que conheceu ainda jovem, e para onde viaja mais uma vez em 1935, de manter a união entre grupos de escoteiros de “diversas cores” numa sociedade forte e horrivelmente marcada pelo já instalado “apartheid”, segregacionismo que se oficializou.

*“BP” também sofreu influências diretas e indiretas da cultura da Índia, onde atuou como militar, além da dos índio norte-americanos, através da obra e do contato como Ernest Thompson Seton, “um dos primeiros ecologistas dos tempos modernos”, autor de “Birch-bark Roll of the Wodcraft Indians” e criador de um programa para jovens “inspirado nos costumes de índios silvícolas”.

*O título “Negras raízes” do texto acima pode atrair pelo conteúdo “macabro” da expressão – o que é em certa medida proposital. Quase sempre palavras como negro e preto (e derivadas) são negativamente qualificadores. Assim se diz “magia negra” e “a coisa está preta” para se referir a algo perigoso e indesejável. É notável como a linguagem acaba colaborando para reforçar estigmas, já que “negro” e “preto” são designativos para afro-descendentes de pele escura aqui em nosso país.


*Quando li essa obra de Laszlo, fiquei positivamente  surpreendido com várias indicações da influência africana no escotismo através do seu criador, o “BP”. Também me impressionou, conforme avançava na leitura do 250 milhões de escoteiros, a perspectiva não-autoritária da proposta educacional escotista (que quero abordar em um outro texto), o que até contradiz a cultura militar e imperialista britânica onde estava fortemente inserido Baden-Powel e a exteriorização (que pode ser interpretada como) para-bélica do movimento através de certos elementos, como o uso de uniformes, distintivos, cultos cívico, denominações como “patrulha”, “tropa” e outras caracterizações e atividades inspiradas nas tradições castrenses e no treinamento de cadetes.

*“BP” era “um homem do seu tempo”, quer dizer, compartilhava valores característicos de um branco europeu que viveu na transição dos séculos XIX ao XX, formado dentro de instituições da Inglaterra ainda potência imperial e imperialista, com domínios em praticamente todo o planeta, arrogando-se detentora da mais avançada “civilização”. Na antropologia cultural é usado um termo, “etnocentrismo”, para se referir a centralidade que temos, enquanto membro de um grupo humano, ao avaliar outros grupos, quase sempre de forma depreciativa e de estranhamento. A forma de combater tal visão “etno-centrada” é relativizar: avaliar os “outros” a partir dos valores, da cosmovisão, desses “outros”, e não a partir de “nossos” próprio parâmetros.


OBS.: Contatos comigo podem ser feitos pelo e-mail iuriaz@hotmal.com


# Há uma versão com pequenas alterações modificada destes textos que foi publicada no blog mantido pelo “Chefe Bala” – Grupo de Escoteiros de Santa Cruz do Sul.

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