Já mencionei a influência de elementos da cultura africana no escotismo a partir de Robert Baden-Powell, fundador do movimento, que viveu na África e apaixonou-se pelo continente, escolhendo-o como terra para o desenlace da sua alma e o retorno do seu corpo à natureza – num gesto de significado simbólico imenso e às vezes desapercebido no meio escotista.
Mas além do continente africano, há outra influência cultural internacional muito importante e também pouco considerada: A da milenar Índia, mais uma região de gente de pele muito morena, com traços físicos e cosmovisão não-européias. Talvez a mais forte evidência disso esteja no fundo didático-pedagógico que Baden-Powel – que iniciou sua carreira militar na Índia, em 1876 – definiu para o ramo que abrange as crianças dentro da organização escotista, os Lobinhos. Tratam-se dos contos do escritor nascido – de pais ingleses – e criado na Índia, Rudyard Kipling, mais especificamente as histórias dos O Livro da Selva e O Segundo Livro da Selva, onde aparece o personagem Mogli, popularizado pelo cinema na versão dos estúdios de Walt Disney.
O sociólogo Laszlo Nagi, em sua obra 250 Milhões de Escoteiros, saída no Brasil em 1987, diz que “em sua maneira usual, pragmática, Baden-Powell transformou as imagens poéticas [como a das aventuras e desventuras do menino Mogli] em uma forma de vida prática, adaptando os sonhos e alegrias de Kipling em um método educacional para pessoas jovens”, complementando que “este casamento feliz da poesia com a ação permanece como um elemento importante na história de sucesso do Escotismo.”
O Manual dos Lobinhos, segundo Laszlo, é inspirado diretamente nos dois “Livros da Selva” (ou da “Jângal”, conforme a tradução ao português), publicados por Kipling original e respectivamente em 1894 e 1895, e considerados as suas obras-primas, cheios de referências à geografia, à fauna, à flora, à história, ao folclore e costumes do povo indiano e de países arredores. Contemporâneo de Baden-Powell, Rudyard recebeu o Prêmio Nobel em 1907, consagrando-se como poeta, contista e romancista de grande atividade social pelo mundo inteiro.
Mogli (ou Mowgli, dependendo do tradutor) é um menino criado dentro de uma família e comunidade de lobos da selva indiana, onde se agregam outros animais, como o urso Baloo, a pantera Bagueera, o abutre Chil, a serpente Kaa, o tigre “vilão” Shere Khan, além das importantes figuras de Akela, o lobo líder do conselho, e a mãe adotiva do bebê perdido, a corajosa e decidida loba Raksha. Entre os humanos, lá estão personagens típicos do que ainda era a Índia do final do século XIX, berço do budismo e de religiões ainda mais antigas e, enfim, de uma civilização complexa muito anterior à Europa cristã.
Assim como Baden-Powell, Rudyard Kipling é “um homem do seu tempo”, com seus inescapáveis vínculos com as idéias que vigoravam no então imenso e poderoso Império Britânico. Mas quero destacar, mais uma vez, a contribuição especial – mesmo que através do filtro de “cara-pálidas” como “BP” e “RK” – de povos “não-ocidentais” na formulação e manifestação do movimento escotista. Tal consideração é uma prevenção, uma lembrança, uma barreira para atitudes racistas no dia-a-dia deste imenso e quase centenário movimento educacional de dimensões mundiais. A África e a Índia estão no “sangue” do escotismo e a discriminação por questões de cor da pele e vínculos étnico-raciais uma impostura a um Escoteiro – desde o tempo de Lobinho!
Santa Cruz do Sul, outubro de 2006.
Complementos:
*O Livro da Jângal foi o título na tradução de Monteiro Lobato, que também traduziu outros contos de Kipling, além do romance Kim, outra obra referencial ao escotismo.
*Há O Segundo livro da Selva, publicado no ano seguinte ao primeiro volume (1894). Este “The Second jungle book” foi ilustrado pelo pai de Rudyard, John Lockwood Kipling. A ilustração que tive acesso, acheia-a sensacional – bem mais fiel, vigorosa e poética do que a versão infantilóide dada pelo estúdio de Walt Disney, que popularizou Mogli nesta versão por demais infantilizada – açucarada/adulterada.
*Há, ainda, O terceiro livro da selva, publicado em 1992, de uma escritora americana, Pámela Jakel, que, dizem, foi muito fiel com o “espírito” das histórias de Kipling, criando enredos que cobrem outros períodos da vida de Mogli, além de contos no estilo “fábulas aventurescas” característico do de Rudyard.
*Kipling, que veio ao Brasil em 1927, teve, em sua tenra infância na Índia (onde nasceu em 1865), uma babá de Goa – território na antiga Índia dominado pelos portugueses – que falava o Português, conforme está na introdução de Cenas brasileiras, livro que narra, com a exuberância kipliniana, as impressões sobre passagem do autor de O livro da selva no Brasil. Está aí, talvez, mais um elo entre Rudyard, sua obra-prima da literatura infanto-juvenil, o escotismo/“lobinhoismo” e o nosso país.
*Kim é um romance especialmente referencial para o escotismo – em razão da própria citação e recomendação de leitura feita por Banden-Powell, que inclusive desenvolve uma resenha e resumo sobre essa obra no seu fundante manual Escotismo para rapazes. Na página 30, “As aventuras de Kim”, BP começa dizendo: “Um bom exemplo do que um Escoteiro pode fazer, acha-se na história de Kim narrada por Rudyard Kipling.” Antes, ao comentar a 4ª “Lei do Escoteiro”, BP diz: “Kim era chamado de ‘o amiguinho de todos’, e este é o apelido que cada escoteiro deve conquistar para si.”
Baden-Powell e Rudyard Kipling têm muitas coisas em comum, além de serem contemporâneos (nasceram e morreram respectivamente em 1857/1941 e 1865/1936). Ambos viveram e fizeram a defesa do imperialismo britânico e sua “missão civilizadora” no atravessar do século XIX e XX. Ambos conheceram com profundidade regiões e povos da África (onde BP faleceu) e da Índia (onde Kipling nasceu), além de viajarem por inúmeros outros países ao longo de suas vidas. Ambos eram “moralistas”, desenvolvendo esforços para disseminar suas idéias – BP fundando o Movimento Escotista e Kipling escrevendo e palestrando pelo mundo todo. Ambos também foram reconhecidos ainda em vida (BP foi agraciado com o título nobiliárquico de Lord em 1929, e Kipling recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1907) e suas obras permanecem no cenário social e cultural de praticamente o mundo inteiro – até mesmo pela associação direta – das mais interessantes – entre o movimento infanto-juvenil de Baden-Powell (Lobinhos, Escoteiros e Bandeirantes) e a literatura também vinculada a crianças e jovens de Kipling (O Livro da Selva e Kim, entre outros), com já aludi. Quem ao menos não ouviu falar em “escoteiros” ou em Mogli? Mesmo que os “pais” destas criações tenham submergido pelo avanço de suas “criaturas”, para quem for mais a fundo, encontrará nesses “filhos” as personalidades, as idéias e as vidas destes dois pensadores e “homens de ação” e, frise-se, também “homens do seu tempo”, vinculados a conceitos e valores contestáveis e até execráveis. Mesmo assim, há uma força e magia para além das ideologias datadas das obras de BP e Kipling. E é isso que mantém os seus apelos de fruição e, digamos, suas utilidades no mundo contemporâneo.
*No Dicionário Enciclopédico Koogan Laroussse, de 1980, sobre Kipling, diz que “Suas poesias e os romances Livros da Selva (1849-1895) e Kim (1901) celebram a superioridade do imperialismo anglo-saxão.” Sem dúvida é uma advertência importante para lermos tais obras e, em conseqüência, avaliarmos criticamente outras criações referenciadas nelas, caso do “Lobinhismo” (O livro da selva, primeiro e segundo volumes) e mesmo do “Escotismo para rapazes” (que remete-se a Kim) de Baden-Powell.
Mas a crítica, que considera Rudyard “o principal representante da literatura imperialista”, às vezes pode ser uma interpretação superficial: “O que Kipling mostra, mais que a presunção do propagandista, é a preocupação do moralista. Preocupa-o certamente o futuro do império britânico, que sabe que vai acabar por desaparecer, mas sustenta que as suas instituições devem defender-se a partir de uma postura ética. Para Kipling, a ação do homem recupera significado na sua dimensão social. Por isso lhe interessam tanto as comunidades militares e escolares e, inclusive, a singular associação dos animais da selva”, conforme texto retirado da internet. Em outro comentário acessado na rede, diz-se que Kipling é “Considerado ‘o Poeta do Império [britânico]’, laureado com o Prêmio Nobel em 1907, [...] é um autor que tem gerado grandes controvérsias. A sua defesa da ‘missão imperial’ inglesa, as suas posições anti-semíticas e misóginas (‘a fêmea da espécie é mais mortífera do que o macho’), por exemplo, são responsáveis por uma certa quebra de popularidade deste autor, mas a complexidade e o vigor da sua obra e da sua escrita continuam a merecer a atenção da crítica e a devoção de muitos leitores.”
Portanto, a preocupação moralista (pautar-se em valores considerados nobres), a defesa de posições a partir da ética, a importância da dimensão social em todas as ações humanas (em contraponto a todo tipo de egoísmos), além da complexidade, vigor e poética da sua obra devem ser contrapostos a posturas execráveis do autor lidas em nossa época. Considerar estas dimensões de Kipling – na continuidade do encantamento de seus contos infanto-juvenis, onde aparecem personagens tão longevos como o menino indiano Mowgli e a perene influência em métodos de educação para crianças, caso dos Lobinhos, dentro do centenário e internacional Movimento Escotista – é evitar o equívoco de simplesmente “jogá-lo no lixo”, fazendo-se como naquela historieta popular, que fala de se ter o cuidado de não jogar o bebê da banheira junto com a água suja...
*Tenho comigo duas versões da obra Kipling que saíram no Brasil nos últimos anos, a O livro da selva, da LPM, 1997, tradução de Vera Karam, e O livro da jângal, da Martin Claret, 2004, tradução de Jean Melville. O segundo é uma coletânea do The second jungle book e do The jungle book. As leituras dos contos onde aparece Mowgli me surpreenderam, me impressionaram, me revelaram um personagem muito mais “selvagem”, agressivo, aventureiro e também poético do que o infantilóide Mowgli caracterizado pela versão dos estúdios Disney (tal versão é a que estava difusamente registrada em minha memória, não despertando, assim, maior interesse da minha parte). Todos os personagens são mais vigorosos e poeticamente viscerais do que esta versão açucarada do cinema. Da leitura, emerge um Mowgli destemido, até soberbo, às vezes, cheio de conflitos em sua juventude, acompanhado de personagens animais e humanos de consistência muito mais densa, como já fiz alusão.
Seguem textos, comentários e outras referências ao que chamamos "raízes do escotismo" (roots of scouts). Queremos falar das origens históricas, sociais, culturais, políticas, pedagógicas, entre outras, do escotismo desenvolvido pelo inglês Robert Baden-Powell e seus continuadores. Além propriamente das "raízes", vamos abordar os "galhos" e "frutos" deste que é o maior movimento infanto-juvenil educativo com mais de um século de existência, espalhado por praticamente o mundo todo.
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