Outra indicação segura de que o escotismo não deve ser associado ao militarismo e, pior, ao belicismo (postura de guerra, confronto, agressão), está nas afirmações de Baden-Powel (BP) ainda no início do movimento escotista na Inglaterra, quando, em 1913, já se avizinhava a sangrenta Primeira Guerra Mundial. Havia militares ingleses “acusando” o escotismo de ser pacifista... Na mesma biografia já citada, “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial” (Editora Salesiana Dom Bosco, 1992), o autor, Terésio Bosco, anota a resposta de BP a um desses oficiais, que criticou o pacifismo do escotismo em declaração na imprensa britânica:
“Fico reconhecido ao oficial que nos faz esta acusação... É verdade. Encorajamos os jovens a pensar em termos de paz e de amizade entre as pessoas e entre os povos”.
E a guerra se deflagrou, envolvendo no inferno as maiores nações da Europa, numa sanha e furor ditada por ambições de lideranças, que, por suas posições e interesses políticos e econômicos de seus grupos, empurravam, insuflavam o conflito, levando a carnificina, ao horror em escala, até aquele tempo, nunca vista: se dispunha de tecnologias armamentistas para a morte em massa, como é o caso do gases venenosos, potentes metralhadores, canhões bem mais precisos etc.
BP, diante das desilusões da guerra, muito visíveis no trágico final dos confrontos estúpidos, pondera:
“Devemos nos empenhar a fim de que os jovens que estão crescendo em todas as partes do mundo possam viver, como irmão, a experiência do escotismo. Eles ficarão assim ligados por uma amizade que possibilitará encontrar uma solução pacífica para os grandes conflitos internacionais...”
No complemento anotado por Bosco, BP mais uma vez reafirma o componente democrático e de auto-engajamento do escotismo, que produzirá bons frutos:
“Se os futuros cidadãos do mundo tiverem convivido lado a lado em um acampamento de escoteiros, serão capazes de regular as controvérsias com discussão [debate entre pares] e pactos amigáveis. Percorrerão o caminho da paz e não o da guerra”.
Infelizmente, veio outra guerra internacional ainda maior, mais letal e traumática. O ainda jovem escotismo não foi capaz de barrar o renascimento do barbarismo – considerando, ainda, que o movimento escotista estava “competindo” com estruturas de coeducação juvenil bem mais próximas do militarismo, tais como a Boys’ Brigade e as organizações juvenis de base nazi-fascista.
Bosco encerra o capítulo dizendo que, ainda em meio ao rescaldo da Primeira Guerra, “a defesa da paz através do escotismo será a ‘missão especial’ de Baden-Powell”. Missão esta que todo escotista deve ter em mente, em especial as lideranças adultas do movimento, construindo sempre ambientes e atividades que reforcem a fraternidade entre as pessoas.
Seguem textos, comentários e outras referências ao que chamamos "raízes do escotismo" (roots of scouts). Queremos falar das origens históricas, sociais, culturais, políticas, pedagógicas, entre outras, do escotismo desenvolvido pelo inglês Robert Baden-Powell e seus continuadores. Além propriamente das "raízes", vamos abordar os "galhos" e "frutos" deste que é o maior movimento infanto-juvenil educativo com mais de um século de existência, espalhado por praticamente o mundo todo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário