terça-feira, 7 de agosto de 2012

Boys' Brigades X Boy Scouts

Muitos associam escotismo a militarismo. Muitos inscrevem seus filhos ou os estimulam para o escotismo justamente com a ideia de que “terão disciplina de exército”, intoduzindo-os em uma espécie de antecipação do serviço militar obrigatório, quando, se supõe, o jovem “se tornará um homem de verdade”. Parece-me que há enganos aí...

Robert Baden-Powel (BP), mesmo que, por sua formação e época de vida, estar longe do que sabemos sobre, por exemplo, o construtivismo do genial epistemólogo* suiço Jean Piaget e os estudos contemporâneos da neurociência, o fundador do escotismo já se postava francamente contrário a uma proposta militarizada para a educação de jovens. O exemplo disso está na sua recusa em apoiar as “Brigadas de Rapazes” (Boys’ Brigade) fundadas pelo seu conterrâneo William Smith.

Conforme narra a biografia “Robert Baden-Powell: Chefe Escoteiro Mundial”, escrita por Terésio Bosco e publicada pela Editora Salesiana Dom Bosco em 1992, BP, após assistir em 1903 “um imponente desfile de soldadinhos, impecavelmente uniformizados” que “obedecem automaticamente às ordens dos chefes”, é indagado por Smith se não era aquela “a melhor maneira de preparar o futuros cidadãos?” E o futuro “chefe mundial dos escoteiro”, em sua proverbial simplicidade e inteligência, diz:

“Se me permite, não estou de acordo. Esta disciplina é muito exterior, muito militar. Jovem é jovem. Para ele é preciso uma disciplina mais alegre, mais espontânea, mais jovem, em suma.”

Adiante, BP, já vai dizendo sobre a responsabilidade do adulto no trabalho com a juventude, desmanchando qualquer ideia impositiva:

“Devemos ter bem diante dos olhos a meta a que deve tender todo educador de jovens: ajudá-los a formar caráter, a desenvolver o espírito de serviçalismo [fraternidade] para com os demais, a tornar-se bons cidadão.”

Vejam que as lideranças adultas são vistas como educadores, e não como instrutores hierarquicamente superiores, a modo militar. Nem se quer desenvolver alguma destreza útil em alguma guerra, dentro de uma estrutura de exército.

Isto fica muito evidente já na primeira saudação feita por BP no acampamento fundador, na ilha de Brownsea, em 1907:

“Tenho plena confiança em vocês, pois conto com o sentimento de honra de vocês. Não obedecerão a mim, e sim ao líder que elegerão dentro de cada 'patrulha' [grupo].”

A organização escoteira está muito mais próxima de uma organização democrática, de uma “pedagogia da autonomia” do que das rígidas hierarquias militares.

Termos como “patrulha” e os próprios uniformes, bandeiras, condecorações etc. são muito mais estratégias para engajar ludicamente os jovens e dar-lhes “espírito de igualdade” do que associar o escotismo a alguma forma de exército, de “força armada”.

No agrupamento chamado de “patrulha”, “um adulto controlará, mas em fazer pesar o seu controle. A patrulha deve ser um mundozinho à parte, com as suas tradições, os seus símbolos, o seu trabalho: uma sociedade em miniatura”, diz Bosco, a partir do que deseja BP: “o desenvolvimento do instinto social”, tendo-se “ilimitada confiança” nas jovens lideranças grupais.

As “Brigadas Juvenis” não foram abandonada (existem até hoje, aliás) e em tempos de ditadura, totalitarismo e guerra (ou onde há “caldo-de-cultura” para tal) foram (ou são) retomadas em seu sentido belicoso, ditatorial – basta falarmos na juventude hitlerista e fascista dos anos de fermentação da Segunda Guerra Mundial, alimentadas por ideologias racistas, totalitárias, cegamente subservientes, cruéis e, até, assassinas.

Esquecer o que moveu e pensou BP ao fundar o escotismo, caindo no equívoco de entender o movimento como disciplinamento militaresco – atestando-se, aí, que não se estudou suficientemente o que disse o seu venerável fundador – é trair uma proposta coeducativa para jovens em busca da paz (que será um próximo assunto).

Um comentário:

  1. Gosto muito de consultar seus trabalhos sobre Escotismo.
    Foi Escoteiro ??? Caso positivo qual Grupo.
    Parabéns, pena tanta ausência de postagens.
    Fui Chefe do 35° GE/RJ João XXIII em Petrópolis, estou no Escotismo desde 1962. Henrique Luiz / Chefe Açor /opturistico@yahoo.com

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